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15 de Maio de 2021

Cabeleira empoderada

Um papo de cabelo para homens e mulheres

Thays Gabrielle, Advogado
Publicado por Thays Gabrielle
há 5 anos

Após a grande polêmica da música cantada por Bel Marques "Cabelo de chapinha", e dos diversos comentários acerca do suposto vitimismo pelo qual nossa sociedade vivencia fervorosamente, me veio a reflexão: será que é só "mimimi" ou falta de ter um pensamento um pouco mais lato sensu?

Quando estamos diante de questões polêmicas como esta, o bom senso do não extremismo, é sempre bem vindo. Não dá pra termos uma visão única das coisas, já que nem tudo na vida é 8 ou 80, o que para mim, nada é. Não ser radical, é ser indeciso? É não ter opinião própria? Creio que não. Determinar isso ou aquilo sem antes ter conhecimento das coisas, da vida, da história, de tudo que nos rodeia, é olhar mas não enxergar. É ser míope do pior grau possível.

Uma simples música no qual a Bahia toda e mais os gringos e turistas, pularão com suas beats coloridas, daqui há alguns meses, não parece indefesa? Quem é que vai ligar pra "ô mainha, mas eu só gosto do cabelo de chapinha, mainha ô tá liso, tá lisinho. Tá liso, tá lisinho..."? Os foliões de plantão e toda massa pelo qual não vê maldade nesses versos, podem sim ter sua opinião e totalmente respeitada. Só não venham dizer que a "sociedade está de mimimi", que são "vitimistas nojentas, sem senso de humor que reclamam de tudo". Não venham falar de coisas pelas quais vocês não sabem ou fingem não saber.

Será que tais pessoas já pensaram nas crianças que não possuem o cabelo do jeito que "painho gosta", ouvindo essa música? O que diriam quando elas vierem empolgadas te mostrar o convite da festa da escola com o seguinte lembrete da tia:

Será que só as Marias Joaquinas embelezarão a festa?

As crianças já crescem com o desconforto de não aceitar as suas origens, quando o seu cabelo não é igual da princesinha da Disney. Crescem com uma sociedade que as intitulam como inferior, no qual aprendem que lugar de preto é nos bastidores.

Ora minha gente, o racismo na maioria das vezes não vem à sua porta com um crachá estampado. Ele vem na surdina mesmo. Nas piadas contadas na mesa de bar, no discursos indefeso "fulana é uma negra linda", que perpassa por gerações, sem pedir licença. Ele escraviza as pessoas. Não enxergamos a maldade porque desde pequenos já ouvíamos as piadinhas e aprendemos a rir de tudo. Porque quando a coisa tá preta, é melhor clarear.

Não estou aqui a dizer que Bel Marques, no qual gosto, quis tratar com desrespeito as mulheres que não possuem as madeixas lisas. Sinceramente, creio que não. Mas ele como a maioria das pessoas, são acostumadas a reproduzirem o discurso do machismo, racismo e demais preconceitos sem ao menos perceber.

Será que o racismo é só mimimi? Será que tratar a polêmica da dita música como caso de justiça, é exagero e recalque da mulherada "encrespada"? Muitos defensores do mimimi não vivem na pelé o que é ser alvo de um preconceito sistematizado e institucionalizado por séculos. Dizer que a voz dessas mulheres empoderadas é apenas lamúria, é querer colocar mais uma vez o que já foi posto nos rodapés dos livros de história, é querer calar a voz da luta. É sentenciar a vidas de negros e negras de todo o país.

Exagero? Não meu amigo. Isso se chama resistência. É lutar todos os dias pra que suas origens não sejam rechaçadas. É não permitir que foliões embriagados e bitolados de ignorância, pulem atrás de um trio elétrico, perpetuando o racismo feito praga. É ter força e não se calar mais.

4 Comentários

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O pior preconceito é aquele oculto, velado, que todos negam ... Gostei do artigo. Não acredito que colocar o racismo no "esquecimento" é uma atitude prudente. Eu acredito que a constante lembrança dos fatos do passado é o melhor caminho. Por exemplo, o holocausto foi tão terrível, e a constante lembrança dele na mente das pessoas (com filmes, livros, toda forma de expor o fato), na minha opinião, é a principal ferramenta para prevenir que algo parecido ocorra no futuro. Claro que não impede, mas ajuda a evitar. Minha opinião. continuar lendo

Se fosse ao contrário ninguém taxaria como "racismo".
Hoje, toda e qualquer discriminação é alastrada como racismo. Não há mais o livre arbítrio, se para aquele emprego é exigida uma pessoa com tais características físicas, embora benéfico aos negócios, se feito, será "racismo".
O "racismo" está em tudo, em todos, se desse modo se proceder.
Deve-se sopesar as situações, os casos concretos, e avaliar se aquilo foi efetivamente racismo, ou uma discriminação benéfica, ou um preconceito, etc., e não difundir uma ideia errônea.
Como já bem disse Morgan Freeman: "o racismo só deixará de existir quando pararmos de falar sobre isso". continuar lendo

Qualquer hora vão chamar urubu rei de racista.
Se você quer ver o racismo, não lhes faltarão oportunidades. Mas faça um esforço e o verá também no sentido contrário e sabe por que?
Porque o ser humano nasceu com olhos e com independência de pensar. Isso lhe traz a visão de diferenças de cores, costumes, modos e conveniências.
Eu apostaria na alegria da música e tenho certeza: Todas as raças a cantarão unidas e todos serão felizes.
Se você quer mesmo implantar o racismo, destaque-o.
Se você quer mesmo eliminar o racismo, ignore-o.
Racista é aquele que vê racismo em tudo e sabe por que?
Porque sua mente, seu pensamento está ligado nisso.
O simplicista jamais será racista. Esta talvez seja uma especialidade dos filósofos. continuar lendo

Meu ponto de vista e estou preparado para receber críticas é que a música relata uma situação cotidiana já que hoje a maioria das mulheres usam a chapinha.
Não acho que houve preconceito na música se olharmos bem muitas músicas vão ter um tom de preconceito.
Se for assim então o sucesso "Lepo Lepo" foi preconceituoso ao chamar o cara de "Duro e perrapado com o salário atrasado". continuar lendo